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Com as narrativas em disputa, as fake news e as redes de desinformação se provam cada vez mais letais. Na disputa nacional sobram referências ao potencial do gabinete do ódio e das milícias digitais, além da onda negacionista que coloca milhões de vidas em risco ao seguir desinformando em meio à pandemia. Porém, muito mais do que notícias falsas espontâneas, por trás de cada fake news existem interesses muito bem definidos e articulados por corporações que buscam estabelecer conexões entre histórias causais, desarticulando a realidade em favor de suas pautas.

Assim, como é possível desarticular a arquitetura criminosa das milícias digitais antes que esta desarticule mais ainda a realidade?

Além da verificabilidade de conteúdo feita por agências e ações de fact checking (checagem de fatos) – cabendo inclusive dispositivos legais para regulamentar e otimizar tais instrumentos importantes para se tratar dos efeitos do disparo de fake news -, é necessário sair da superfície do debate de restrição de fluxo de mensagens ou operacionalidade de contas; e estabelecer mecanismos que enfrentem a fonte e, portanto, a estrutura de financiamento das redes de ódio, inviabilizando um sustento que muitas vezes decorre da prática lícita de monetização e de rede de anúncios pagos.

Pois, na prática, quanto mais polêmicas forem as fake news produzidas criminosamente por tais portais, maior seu compartilhamento e fluxo de acesso e, consequentemente, maior sua monetização lícita e autossuficiência financeira – retroalimentando o esquema criminoso na margem da legalidade.

Em contraponto, o Sleeping Giants Brasil (inspirado na versão estadunidense) passou a constranger patrocinadores de anúncios que aparecem em portais com notícias falsas e maliciosas, causando um prejuízo estimado de 448 mil reais para as redes de ódio apenas em seu primeiro mês de ação. Não à toa, essa mobilização tem sido retalhada tanto por milícias digitais que forjam uma espontaneidade ao subir hashtags no Twitter e influenciar algoritmos via bots, quanto por movimentações institucionais que se demonstram cada vez mais íntimas de tais redes de ódio – como aponta The Intercept.

Mais recente, o Jornal da Cidade Online se movimentou na justiça para expor os dados dos criadores do perfil do Sleeping Giants Brasil. O Jornal, porém, além de investigado pela CPMI das fake news no Congresso por produção de notícias falsas, foi o primeiro alvo do Sleeping Giants Brasil – com mais de 130 marcas tendo retirado seus anúncios do Jornal da Cidade Online, exemplo ao Carrefour, Adidas, Santander e Latam.

Não à toa, mas viabilizando tal esquema criminoso de desinformação proposital, um relatório da CPMI das fake news apontou que páginas da base bolsonarista e apoiadoras do Governo receberam aproximadamente 2 milhões de reais via anúncios pagos com verbas da Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom).

Ainda que dinâmico e complexo, o cerco começa a se materializar no entorno das redes do ódio, destacando seu financiamento como alicerce para arquitetura de manipulação da realidade. Assim, apenas superando a visão de que notícias falsas são apenas subprodutos do acaso que torna-se possível fortalecer instrumentos de desarticulação destas redes a nível de estrutura, financiamento e inserção institucional.

Enquanto o debate corre, nos vale redobrar esforços para um engajamento que dispute qualitativamente a pauta, fazendo uso da experiência do Sleeping Giants para elaborar parâmetros legais que desarticulem tal rede institucional e estruturalmente; até porque, enquanto bots distorcem a realidade ao sequestrar a narrativa para um suposto volume nas redes que coloca na conta de supostos indivíduos a mobilização da desinformação, nos resta a realidade, com pautas reais, pessoas reais e vidas colocadas em risco por interesses privados de corporações e suas milícias digitais.